Monte Roraima #SemRomantismo #dia1

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No romance as coisas são lindas, o autor faz uma descrição maravilhosa de um lugar, retrata um momento comum de forma emocionante e chegamos a acreditar que iremos viver algo parecido. Isso é romantismo! Mas cade a produção?

Quando vejo uma foto de alguém extremamente feliz de chegar no alto do Monte Roraima, eu entendo aquele sorriso. Ele está aí porque o caminho não foi fácil, porque houve uma superação pessoal e tudo o que foi ‘ruim’ durante o caminho, da um sabor especial ao momento de chegar lá em cima e ver aquela vista. Eu cheguei lá em cima, e assim que cheguei lá, descobri não dava para ver a vista. Estava cansada queria comer e dormir. Foi o que fiz. Não fui no passeio do primeiro dia.

 

Eu no último dia no topo do Monte, vendo a vista pela primeira vez. Feliz de estar lá!
Eu no último dia no topo do Monte, vendo a vista pela primeira vez. Feliz de estar lá!

Vou contar um pouco do caminho para chegar lá, quero tirar o romance da viagem fofa, em que tudo é perfeito. Quero torná-la divertida pelas dificuldades, quero dizer, porque no final sorri e postei a foto no facebook. Era muito engraçado não ter as coisas, era muito bom estar lá. Essa é uma felicidade construída. Eu a construí realizando o meu sonho, adoro fazer isso, construir a minha felicidade fazendo o que gosto, passando por tudo que tenho direito no caminho.

Como sabem, eu viajo sem dinheiro. Mas não é sempre assim, vou me explicar nesse caso.

Eu tinha trabalhado no barco entre Belém-Manaus e tinha ganhado gorgeta. Cheguei na Venezuela com 32 reais e o sonho de subir o Monte Roraima. Um mês antes tinha visitado o Gabriel em São Paulo e ele tinha me falado que queria muito ir aí. Quis ver as fotos e me apaixonei. Mudei de planos e o roteiro passou a ser: quero passar no Monte Roraima. Foi assim que se tornou meu novo sonho.

Um mês depois lá estava eu, saindo de Boa Vista de carona rumo a fazer minha primeira grande aventura na selva. Todos, digo, todas as pessoas que encontrei na divisa me diziam para ter cuidado na Venezuela que estava super perigoso. Por convicção e experiência, nunca acredito que um lugar é tão violento. (Quanto mais me falavam, mais queria desmistificar o lugar, ver com meus próprios olhos. Conhecer a gente e ver como funcionava esse país desconhecido. Pode ter violência lá, mas o parque é o lugar mais seguro que já fui, ali é uma comunidade indígena e não vi nada, absolutamente nada, de violência.)

Peguei carona com um caminhoneiro até a Pacaraima, divisa Brasil-Venezuela, passei na Polícia Federal e ali conheci uma família de brasileiros que moram na Venezuela e me ofereceram carona. Eles me convidaram para ficar na casa de uma prima onde estavam em Santa Elena de Uairén. Tinha um quarto sobrando e não precisaria acampar. Um luxo! 🙂

Ficamos conversando, cozinhamos (aprendi a fazer arepas) e dormimos cedo pois no dia seguinte eles seguiriam viagem e me deixariam na cidade que é porta da entrada do Parque Nacional Canaima, onde teria acesso ao meu caminho.

Vendo o sol nascer na carona para chegar até San Francisco Yurani
Vendo o sol nascer na carona para chegar até San Francisco Yurani
A carona era na carroceria. Vi o sol nascer e fiquei bem feliz com o vento e o sol na cara. Felicidade também esquenta.
A carona era na carroceria. Vi o sol nascer e fiquei bem feliz com o vento e o sol na cara. Felicidade também esquenta.

Chegando lá, me contaram que no Parque eu não teria onde comprar comida, então fui fazer as compras. Arroz, macarrão, ervilhas, aveia e pão. Descobri que tinha água durante todo o caminho então não deveria me preocupar com isso. Se você faz trilha, sabe que pelo meu cardápio, era uma despreparada, sem ter nenhuma ideia do que levar. Queria frutas e não via para comprar. Fui conversar com o pessoal do restaurante para saber se era época de alguma fruta e onde poderia pegar/comprar. Era época de manga e as mangas estavam perdendo no chão, no fundo da Vila tinha a casa do Seu Francisco e lá fui eu atrás das mangas! 🙂 Acho que daí em diante carregava uns 5 kg de mangas e uns 5 kg das outras comidas. As mangas estavam tão boas, que não me importava com o peso (era o começo da viagem!).

Estava pronta. Tinha comida, barraca, saco de dormir, roupa de frio e a bota, mesmo estando estragada, estava ali para a minha jornada. Agora era entrar no parque. Uma carona a mais.

Ali mesmo, onde estava na porta do restaurante, chegaram duas venezuelanas prontíssimas para subir. O ônibus delas tinha atrasado e as irmãs Fayira e Iraivel estavam esperando o seu grupo para subir. Elas me ajudaram a conseguir essa carona, ficamos amiga ali. Eu tinha chegado em San Francisco de Yurani umas 6 horas, terminei de arrumar a comida as 9 horas, as meninas apareceram em seguida e antes das 11 horas o grupo já estava ali.

Me levaram até Paraquepuí. O guia deixou claro quando me deu a carona era só até a comunidade indígena que fica na entrada. Lá conversei com mais calma com o Roger e expliquei meu caso e que só tinha o que agora seria 15 reais, ou 500 bolivares. Ele não aceitou.  Disse que a viagem custava 700 reais e que não tinha como me ajudar. Eu agradeci e fiquei ali por perto, aproveitei para almoçar meu pão com manga, pois o grupo que tinha seu pacote estava lanchando seus sanduíches.

Minha carona 4x4 para chegar no Parque. Caminho que se fosse fazer caminhando levaria o dia.
Minha carona 4×4 para chegar no Parque. Caminho que se fosse fazer caminhando levaria o dia.
Eu e as mochilas. Esse sorriso era do primeiro dia. Eu ainda deixei unas 7 quilos de coisas que carregava em Paraquepui.
Eu e as mochilas. Esse sorriso era do primeiro dia. Eu ainda deixei unas 7 quilos de coisas que carregava em Paraquepui.

O grupo saiu no seu passeio, me despedi do pessoal que tinha conhecido e fiquei sentada apreciando a vista, dessa comunidade se tem a visão panorâmica os Tepúis (esse tipo de Monte é chamado assim). Quando todos já tinha saído, o guia chegou para mim e me disse que poderia ir também, mas que estaria por minha TOTAL responsabilidade. E repetiu mais umas vezes que não tinha nada comigo e não aceitou o dinheiro. A partir desse momento decidi que daria esse dinheiro no final. Que não era muito, mas eu daria tudo o que tinha, se tivesse mais, daria tudo da mesma forma.

Foi assim que a caminhada começou! Eu bem atrás do grupo, carregando minhas duas mochilas com comida que imagino pesava uns 20 quilos e com meu não-preparo e sem nenhuma experiência nesse tipo de caminhada. Nesse dia, descobri que ficaria uma semana sem telefone e internet, foi tudo muito rápido, e percebi que só daí uma semana meus pais teriam notícias minhas andando pela Gran Sabana.

Depois de uma hora consegui alcançar o grupo, depois fiquei para trás de novo e fui a última a chegar, ao contrário de mim, todos, até o John que tinha 56 anos, estava preparado. Assim fui ficando para trás… mas cheguei antes da chuva feliz, que começou em seguida.

Trilha primeiro dia. O grupo lá na frente.
Trilha primeiro dia. O grupo lá na frente.

Depois de umas 4 horas de caminhada chegamos ao acampamento  a beira do Rio Tek. Tomamos banho de rio, tinha mais grupos acampando e começamos a conversar mais sobre o caminho. Eu estava paralela ao grupo. Ficava junto, fui fazendo amizade aos poucos, mas as refeições eram separadas e o guia queria deixar isso bem claro para não causar problemas, pois todos tinham pagado para estar ali.

Tentei de todas as maneiras oferecer ajuda, mas eles não aceitavam, já tinha sua rotina na cozinha e estavam bem com ela. Era o primeiro dia e fiquei mais na minha. Pois a última coisa que queria era causa conflito no grupo ou problema para os guias.

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 Rio Tek, primeiro acampamento.

Acampamento: não é luxo, mas não era luxo que tinha ido buscar ali! 

Após tomar banho, decidi que não dava para continuar no pão. Contei com a minha melhor cara-de-pau e fui pedir o fogão para cozinhar. Foi assim que começamos a amizade, fiz meu melhor macarrão com sal, não tinha comprado tempero. Estava com fome e estava muito feliz de estar aí. Não esperava comer o melhor macarrão do mundo. Nem existia essa possibilidade, mas meio prato era farto e a comida estava quente. No meio do prato, os carregadores (que também eram os cozinheiros) me ofereceram ketchup. Aí sim comi o melhor macarrão com ketchup da vida. Precisava de muito pouco para ser feliz. Não faço comparação com o cardápio do grupo, que dia após dia poderia me causar uma pequena inveja. Estava muito feliz de estar ali. E isso me bastava. Só pensei, da próxima vez que for fazer trilha, não esquecer de levar temperos!

Tepuis Kukenan e Roraima, vista do acampamento do Rio Tek no final do primeiro dia.
Tepuis Kukenan e Roraima, vista do acampamento do Rio Tek no final do primeiro dia.

Armei o Sapito. Minha barraca que anda comigo! O nome sapito é porque é verde, mas ao contrário de sapos, minha fiel barraca, não resite a água, nem ao vento, deve ter medo de trovões também. Como ela estava nitidamente quebrada, como lá chove todas as noites e venta muito, quando todos foram dormir, os guias foram lá me avisar que podia armá-la no refeitório, que era coberto. Estava feliz, um problema a menos.

Eles riram bastante da barraca e disseram que nessa noite podiam me ajudar, mas que não sabiam como seria nas outras. Nem eu. Me lembrei da minha sentença ‘’Não se preocupe com problemas que não existem’’ e fiquei feliz de ter jantado, conseguido carona e no primeiro dia de tentativa, já estava a caminho do Monte Roraima. Eu estava preparada para ficar mais de uma semana por ali trabalhando e tentando subir…. e de perigoso, a Venezuela não tinha nada até o momento!

O #Dia 1 acabou assim! Decidi contar a viagem em etapas, amanhã continuo contando como foi o caminho até subir. Tem muita história.

 

 

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