Monte Roraima: com menos vou mais longe #dia2

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Esse texto é um relato de um dia longo que começou durante a noite!

Uma das noites mais lindas da minha vida aconteceu na viagem. Foi do primeiro para o segundo dia. Acordei de madrugada para ir ao banheiro, foi só um golpe do meu corpo para sair da barraca e me perder no Show de Estrelas que havia no céu. Com a ajuda da via láctea voltei para a barraca, hoje tenho dúvidas se aquele céu tão lindo e lotado de estrelas era real ou um sonho. Voltei para barraca e dormi maravilhosamente. Nada como caminhar 12 km carregando as mochilas pesadas para descansar como uma criança.

Música: Show de Estrelas

Era umas 5 quando levantei. O dia estava amanhecendo. Arrumei minhas coisas, desmontei a barraca e fui no rio pegar água para o café da manhã. Me senti em tempos antigos indo buscar água no rio. Comer frutas que tinha colhido e o pão que o pessoal que conheci tinha feito.

Estava super contente com as mangas-mais-doces-do-mundo que combinavam perfeitamente com minha aveia e os pães para o café da manhã. No segundo dia já tinha entendido que a comida saudável e calórica é essencial nessas caminhadas. Muito mais importante que o sabor delas. Comi bastante! Um super café da manhã para começar a caminhada! 🙂  O pessoal foi acordando aos poucos e antes das 7 horas estávamos todos caminhando. Era dia de atravessar os rios Tek e Kukenan para chegar no acampamento base para almoçar.

Grupo cruzando o rio sobre as pedras.
Grupo cruzando o rio sobre as pedras.

Aprendizado 1: comida tem que oferecer as colorias e nutrientes pro dia, mais do que ter um bom sabor. Não existe dieta quando se faz trilha, açúcar é um ótimo energético!

Eu comecei a caminhada junto com o grupo, um pouco atrás. Quando cheguei no segundo rio, o Kukenan, eu já era a última. O pessoal do ‘pelotão de elite’ já estava nadando a um bom tempo e tomando sol, os da traseira, estavam cruzando o Rio. No caminho tinha entendido a importância dos bastões de apoio ou mesmo um cajado em trilhas com mochila, mas por mais que procurasse qualquer pau pelo caminho, eu não encontrei nenhum.

Túlio brasileiro experiente em trilhas que me ensinou várias coisas no caminho.
Túlio brasileiro experiente em trilhas que me ensinou várias coisas no caminho. Ele tinha bastões de caminhada!

Aprendizado 2: levar bastões em longas caminhadas com peso, evitar forçar o joelho e divide o peso no corpo.

Depois do rio Kukenan nunca mais encontrei o grupo. Via as mochilas coloridas a alguns quilômetros de distância, que a cada momento aumentava mais. Fui entendendo aos poucos o que significava carregar o dobro do peso. Estar com comida, barraca, roupas de frio… Comer manga já era a estratégia para diminuir o peso e ter energia para seguir adiante.

O carregadores passaram por mim depois de todos. Perguntei se faltava muito, eles me mostraram um lugar a mais de 2 km que seria a metade do caminho. Caminhei mais um pouco tentando ainda alcançar o grupo, depois desisti. Sentei, lanchei, voltei a tirar fotos a apreciar a região, devagar e não me preocupar com o tempo que iria chegar. Tinha água, comida e mais de 8 horas até o dia acabar. Relaxei!

No caminho eu ia encontrando carregadores descendo e subindo que passavam por mim facilmente e sumiam. Eles usavam a roupa tipica de carregadores: bermuda colorida estilo praia, meia até o joelho, crocs (nunca vou entender como usam isso para subir e descer aquelas pedras) e uma mochila sem apoio na cintura onde carregam facilmente seus 50 kg. – o permitido é 15 kg, mas a cada 15 kg a mais eles dobram a diária. Era ridículo ver a facilidade com que eles caminhavam!

Os queridos Junior e Martin! Carregadores, cozinheiros e novos amigos que fiz nessa jornada. Eles subiam e desciam o Monte de Crocs!!!!
Os queridos Junior e Martin! Carregadores, cozinheiros e novos amigos que fiz nessa jornada. Eles subiam e desciam o Monte de Crocs!!!!

Tudo isso me fazia colocar na balança meus aprendizados sobre como fazer trilha, comer, preparação… ou ser resiliente. De fato, quem é da região, se adapta aquela vida, sem necessitar as parafernalhas do mundo moderno. Aliás, ali não pega celular, não tem internet e a comunicação e os recados são via carregadores. Eu ia caminhando sozinha, mas lá no acampamento base, os carregadores contavam que eu estava bem e caminhando e diziam mais ou menos que hora ia chegar. Eles eram simpáticos, me davam bom dia, alguns paravam e conversavam comigo, caminhavam um pouco ao meu lado e sumiam.

Aprendizado 3: talvez eu tenha que me preparar para essas viagens, talvez não!

Quando falta mais ou menos 1 hora para chegar começou a descer um grupo. Entre o grupo tinha dois norte-americanos que conheci quando trabalhei no navio entre Belém-Manaus. A gente começou a rir de longe quando se viu. Foi o melhor momento do dia, encontrar caras amigas e conhecidas nas alturas. Eles me contaram que o tempo lá em cima não estava tão bom, pegaram chuva, mas acharam o lugar incrível. Tirei uma foto deles e dos despedimos! 🙂

Nosso dialogo:

Daniel: How did you arrive here without money?
Me: Walking and carring my food and tent. 🙂
Daniel: I can’t believe!
We laughed

Daniel e seu amigo! Reencontro na subida! :)
Daniel e seu amigo! Reencontro na subida! 🙂

Aprendizado 4:  Um sorriso amigo da muita força!

Segui mais contentes, todas as pessoas do grupo que passava por mim sorria e dizia que já estava chegando para me animar. Cheguei no acampamento depois da 1 hora da tarde, mais de seis horas caminhando sem descansar por muito tempo. Estava feliz de ter chegado. Os meus novos amigos do grupo tinham ficado preocupados e estavam lá para me receber com palavras de ânimo.

Senti uma felicidade chegar no acampamento! As conversas sobre o dia era a paisagem, os lugares bonitos que tínhamos passado e a coincidência incrível de encontrar conhecidos americanos por ali.  Não tive coragem de tomar banho nesse rio de águas congelantes. Tomei o famoso banho de gato! Ali já estava a 1800 graus de altitude. Friorenta que sou, já tinha colocado minhas 3 blusas de frio.

Foto panorâmica do acampamento base.
Foto panorâmica do acampamento base.

A cozinha já estava liberada, fiz meu almoço, armei a barraca e fui descansar. Só mais tarde iria acordar para tentar entender como eu subiria no dia seguinte aquele paredão!!! Quanto mais olhava para o paredão, mais dúvida tinha se ia conseguir! Independente do dia seguinte. No final do dia ficamos conversando e discutindo o caminho… o guia deu uma explicação nada convincente do caminho inacreditável pelas pedras. Ele garantia: não teríamos que escalar. Nós duvidávamos!

Foi nessa noite que refiz minhas mochilas e desapeguei das mangas. Com todo aquele peso não chegaria nunca! E minhas intuição estava certa. Dei várias mangas pro pessoal do acampamento e deixei a mochila menor com uns 6 kg no acampamento base. Subi só com a comida e roupas de frio necessárias.

all-you-need-is-less

Aprendizado 5: All we need is less! Por menos que carregamos, sempre carregamos mais do que é necessário.

Fui dormir cedo. Precisava estar bem para o dia seguinte, não podia ficar para trás no topo do Monte Roraima é impossível andar lá sem guia. E como era convidada surpresa do grupo, essa possibilidade não existia.

Os guias mais uma vez conseguiram um teto para eu por a minha barraca. Nem acordei com a chuva forte que caiu toda a noite. O que viabilizou eu subir no dia seguinte, com roupas e barraca seca. 🙂  Sorte, coincidências e boa-vontade. Tudo isso junto e misturado.

Em dias difíceis como esse eu faço lista de aprendizados, de coisas que recomendo para minha próxima viagem (que nunca faço!) e digo para quem vai. Aí quando volto para casa e vejo esse relato penso o que nenhuma mãe vai concordar:

”Até agora não li nenhum blog ou matéria sobre o Monte Roraima. Subi e desci. Foi incrível não saber como seria a viagem. Cada dia era cheio de descobertas. Era tanta coisa nova que nem lembrava que não tinha banheiro, energia elétrica ou cozinha. Nessa vida, vim para aprender fazendo! A falta de planejamento, expectativas e conhecimento fez com que eu fosse até lá. Talvez não tivesse ido se lesse todos os blogs das pessoas que se prepararam meses antes.”

Então, se você está lendo esses relatos da viagem, lembre da minha foto feliz lá em cima. Não deixe que um blog mude sua opinião e te dê preguiça de ir lá. Se isso acontecer, pare de ler imediatamente, pegue sua mochila e vá lá conferir.

Eu feliz 2! :)
Eu feliz 2! 🙂
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