Minha primeira heroína negra: Dandara

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Me apaixonei pela história de Dandara antes mesmo de ler o livro, quando estava lendo a linda entrevista da Aline Valek com a Jarid. Entendi completamente a vontade da autora de contar as histórias de Dandara. Sinto falta de heroínas mulheres, de histórias onde somos protagonistas e lutamos pelo o que acreditamos. Só por contar essa história, o livro já valia a pena. Mas ela vai longe, muito mais longe do que eu poderia imaginar. Ela me conta a história que eu gostaria de ouvir há muitos anos, ela humaniza a escravidão, ela mostra os orixás e deixa os brancos, criminosos e escravista, atualmente racistas, de joelhos.

Agora escrevendo, fui buscar mentalmente outras heroínas para comparar. Não encontrei. Da minha ignorância, acabo de ler o primeiro livro com uma heroína negra. Percebi a lacuna que existe na minha história, onde as heroínas não se identificam comigo, omitem suas raízes-africanas. Por mais livros que tenha lido com personagens mulheres, foi com Dandara que me indentifiquei. Talvez por não ser perfeita, talvez por lutar pela liberdade de seus irmãos e irmãs. Por não se contentar em viver no quilombo, enquanto tem gente que vive presa.

O livro é um poema nos meus ouvidos. Um paisagem para minha visão. Me mostra uma heroína com corpo lindo, negro e sem proporções televisisas. Me conta histórias dos orixás, me faz sentir a tristeza do continente que tem seus filhos roubados para serem escravisados. Vai incluindo aos poucos elementos da cultura africana, mostra o dia-a-dia de um quilombo e os sonhos das pessoas que almejavam chegar lá. Não para ter riqueza e glória, mas para ter liberdade.

O cenário do livro é a natureza e o quilombo, isolado da cidade. Isso me encantou. Ver a desenvoltura de mulheres que andam pela mata, como Bayô, e homens que nem sempre são corajosos, como Kambo, e mostram outras qualidades. Ver seus lugares preferidos no alto da montanha ou numa clareira jogando capoeira.

Para completar, tem lindas ilustrações da Aline Valek ao longo do livro. Mostrando os personagens, criando um repertório simbólico africano-brasileiro.

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A construção da personagem e a maturidade que vai obtendo ao longo da vida é super importante para ela se tornar uma heroína. Pois ninguém acorda e vai lutar pelo o que quer, demora anos, precisa cometer erros, reconhecê-los, fazer atividades chatas diárias, para no final, depois de muito trabalho diário e cansativo, se tornar uma heroína. Suava só de pensar na rotina de uma líder que se auto-obrigava a dar o exemplo para seus guerreiros.

Como toda heroína, Dandara acaba tendo seu romance com Zumbi. Da sua maneira, ela vai conduzindo o relacionamento sem perder de vista seu objetivo, a liberdade do seu povo. É lindo perceber como a saúde do relacionamento só se torna possível quando a protagonista é aceita como ela é. Sem ser julgada no seu trabalho como guerreira pelo seu relacionamento. Quando ela mostra que sua missão e seu trabalho é mais importante para ela que o romance, Zumbi recua. E se torna é um fofo feminista depois de ser rejeitado!

Ao longo do livro, pensei várias vezes que a violência tomaria conta. Afinal, são muitas batalhas entre os guerreiros quilombolas e os capangas dos fazendeiros. Ao contrário disso, senti leveza ao longo de cada capítulo, com saídas espertas, a autora mostra que a força está na mente e na capacidade de criar soluções, gerar medo e respeito. Se impor sem violência, na maioria da vezes.

Isso me tocou, porque não gosto de livros violentos. Fiquei com muita vontade de contar as lendas para crianças. Aí, me toquei que violento mesmo, são os desenhos e filmes. Hoje, as crianças vivem brincando de atirar, reproduzindo a violência, mesmo sem ter motivo para lutar. Acho que a escravidão era um ótimo motivos para lutar. Assim como é o racismo e o machismo hoje.

Recomendo muito esse livro! Para todos que querem entender melhor a escravidão no Brasil. Para todas as mulheres que querem ter uma heroína na nossa hitória. Para todos os homens que desejam se tornar melhores companheiros. Para todas as crianças, que precisam saber, que muita gente lutou para termos um país mais igual. Mulheres e homens que se revoltaram ao serem desumanizados e escravizados.

Viva Dandara! Viva Zumbi! Viva Palmares!

Me conta, vai, quem foi a sua primeira heroína negra?

Observação: Essa resenha é fruto de uma troca com a Jarid Arraes. Eu ofereci fazê-la em troca do e-book, pois evito usar dinheiro e acredito que todas as pessoas são muito melhores que qualquer moeda. Obrigada Jadir por aceitar a troca, o seu livro não tem preço.

Adiquira o livro
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Leia a entrevista com a Aline Valek e sua resenha

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