Escolhas

Sobre trocas e a vinda pra Europa

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Vista do mar da janela do avião chegando em Portugal

Cheguei em Portugal dia 12/11/15. A “volta ao mundo” continua. Foi fácil e ao mesmo tempo muito difícil pra mim mudar de destino. Fácil porquê quando decidi continuar a viajar rapidamente consegui o dinheiro da passagem e quem comprasse no cartão. Difícil, pois a decisão do Mark e da Dani de não seguir viagem me partiu o coração. Depois de 2 meses esperando eles pra irmos juntos pro Caribe, no dia 30 de agosto eles me enviaram um email dizendo que não iriam mais.

Nos últimos meses, graças a essa dificuldade tive a oportunidade de repensar as minhas relações de troca. Eu errei em “colocar todos os ovos na mesma cesta”. Ao todo foram 10 meses de envolvimento com o Rusalka, talvez essa seja uma das poucas relações com muita dedicação que senti não se aprofundou. Mesmo depois de tanto tempo. É como ter um ex-namorado que depois de uma dedicação profunda por muito tempo, decidi sair da sua vida. Nesses 10 meses eu construí um castelo de areia em torno do barco. O que de nenhuma forma tira a beleza da experiência de viver em um veleiro, nem a das viagens. Essa experiência foi muito mais importante para mim porque não deu certo.

Demorei 2 meses para conseguir escrever sobre isso. Então, quero compartilhar meus aprendizados:

– Em relações de troca nunca pode existir uma hierarquia. Mesmo num veleiro, o capitão não é capitão o tempo inteiro. Se essa é a única posição que uma pessoa consegue ocupar, ela não esta numa relação de troca. Assim como seguir ordens, sem autonomia, nunca será uma relação de troca. É preciso criar espaços horizontais em todos os lugares. Não precisa ser 100% horizontal, nem o oposto.

– os dois lados precisam delimitar seu espaço. Eu não consegui lá delimitar o meu. Precisava de fazer yoga todos os dias e meditar. Abrir mão disso resultou em perda da minha qualidade de vida e motivação. Aprendi que não da pra estar 100% a serviço.

– as vezes, a troca não compensa por economia, nem por aprendizado. Aprendi que quando não existe uma metodologia para ensinar, a vivência sozinha não é a solução. Viver alguns lugares e aprender fazendo funciona. Mas é preciso existir um ambiente pra isso.

– a relação de troca só é possível quando é bom para os dois lados. Se um dos lados acha que está “fazendo um favor”. Isso não é troca. Se um lado acha que está dando mais do que recebendo, isso também não é troca.

– numa relação de troca, devemos tratar as pessoas como irmãos, pais e filhos. Fazer para o outro o que gostaríamos que o outro fizesse por nós. Isso só é possível com diálogo e uma comunicação clara. Para ter diálogo, não basta estar aberto, se faz necessário criar momentos.

– a troca é um serviço que prestamos como qualquer outro. Seu valor não tem nada a ver com seu preço. Todos os compromissos feitos são importantes e precisam ser cumpridos ou justificados. Sempre considerei a troca tão preciosa quanto um trabalho, até mais. Na troca eu dou o meu melhor, que é muito mais que o dinheiro. Aprendi que é muito importante ter comprometimento.

– Aprendi que somos responsáveis pelas pessoas a nossa volta. Elas sempre são importantes. E mais uma vez, aprendi a não esperar nada do outro diretamente. O universo irá prover.

Enfim, estou em Portugal. Estar aqui significa que cruzei um oceano de avião, fica para o futuro o sonho de cruzar velejando…. Estou feliz de voltar a andar pelo mundo no meu próprio ritmo, viajar de carona e conhecer outras formas de viver.

Vale das Cortiças, Odemira, Portugal.

outono, 20 de novembro de 2015

Escrevi esse texto em novembro, mas estava publicado com outra página.

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Viajante tem família

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Viajante tem família e eles vão longe atrás de mim.

Essa noite dormi entre meu pai e minha mãe. Quando perguntaram quem é que estava ali, respondi: é a Cacazita. Cena antiga e cotidiana há 20 anos atrás. Muita coisa mudou nesse tempo, eles mudaram, eu mudei, mas o principal ficou: é bom dormir com eles. 🙂

Tenho vários amigos que perderam o pai, a mãe ou a família seguiu um rumo diferente. Eu dei muita sorte de tê-los assim, casados e amorosos entre eles, comigo e meus irmãos. Eles também dormiram bem sabendo que estava ali, protegida. Sem dormir no meio do mato, nem em alguma praia ou na casa de alguma nov@ amig@.

O Marinho também veio, o hotel designou uma cama de casal pra gente dormir. Ficamos juntos todas as noites, antes de ficar de filha única. 🙂 Fiquei feliz de poder importuná-lo como só uma irmã pode fazer. Novamente não consegui me igualar a sua genialidade. Me esforcei, quem sabe na próxima eu coloque um ser em decomposição na sua mala.

Eu segui um caminho muito diferente da minha família. Somos únicos, temos opiniões distintas sobre política, educação, modelo de família, estilo de vida e quase todas as outras preferências possíveis. Mesmo assim, se nos darmos conta, quem nos vê de fora percebe um semelhança. As piadas só tem graça porque discordamos e podemos expressar isso. Rimos de nós. Somos livres e escolhemos como queremos viver, cada escolha tem a sua consequência, mas nenhuma delas exclui ter uma família e um bom relacionamento.

Faltou a Naná nessa viagem, apesar dela não ter vindo, comprou todas as passagens e esteve presente nas nossas conversas. Sentimos sua ausência, porque com ela a viagem tem mais emoção, conflitos (piada interna). 🙂

Estou mais feliz hoje por estar com eles. Escolhemos estar juntos, manter o contato e alimentar nosso amor. Esses dias foram preciosos, me mostraram que mesmo tendo todos os meus defeitos, nossas diferenças e mesmo a distancia, não importa. Serei sempre a Cacazita, iremos sempre sacanear uns aos outros e assim, por mais estranho que pareça, estaremos sempre juntos.

Amo eles. Só me tornei que em sou por causa deles. Talvez por reagir e questionar, em vez de seguir seus conselhos. Foi o amor incondicional da família a minha libertação da sociedade. Além de descobrir o mais importante: meus valores são bem parecidos com o deles. Mesmo que minha vida seja tão estranha.

Escrito de Natal enquanto desfruto ter internet, energia elétrica e não ter nenhuma obrigação.
Com <3,
Carol

Beijo, mãe!

#luxonaviagem #paitrocinio

P.S.: claro que eles não concordam com meu estilo de vida.

P.S.2: Não mando beijos pros outros porque não acompanham meu blog.

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Mulher livre vai para onde quer! Inclusive dar uma voltinha no mundo…

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Toda mulher tem o direito de viajar sem medo. Chamo isso de liberdade. Todo homem também, mas o medo que atormenta as mulheres é outro. Podem roubar, podem levar todo o dinheiro, só não queremos que mexam com a gente. O mais louco, que não tem pra onde correr nesse aspecto. Se ando de bike em São Paulo, vou escutar comentários. Se passo na frente de um bar, construção ou um simples aglomerado de homens, lá vem uma gracinha. O problema não está em mim, está nos homens. Na viagem é parecido, mas acho que os homens mudam um pouco a abordagem quando sentem segurança na mulher. Faz alguns anos que passei a respondê-los.

Para viajar pelo mundo, ir a onde quiser, precisamos saber andar sozinha. Sou fã da Leila Diniz, aprendi viajando a gostar de mim e da minha companhia. Adoro viajar com mais gente, mas como os amigos nem sempre estão disponíveis, eu não deixo de fazer nada porque estou sozinha.  Foi por isso que comecei a viajar sozinha, a falta de opção me libertou. 🙂

Leila Diniz
Leila Diniz

Em 2013 escrevi um texto sobre caronas com caminhoneiros, nele falo para mulheres não usarem decote, roupas curtas. Nós podemos usar a roupa que quiser, mas acho que melhora a vida na estrada chamar menos atenção. Espero realmente que um dia isso mude, mas por enquanto, essa é uma briga que não compro na estrada. Dói sempre que digo isso, mas ainda é assim, podemos ser ”confundidas”…

A Lola escreveu uma resenha muito boa sobre o livro o Dom do Medo, que fala sobre os ”stalkers” (perseguidores). Está nesse link aqui, para quem tem medo desse tipo de assédio durante a viagem. O post chama ”Sinais que você deve temer”. A pior parte do texto, é o fato que eu já sabia, mas vou deixar o trecho aqui, que corremos menos riscos com os estranhos.

E não são estupradas apenas pelo estranho numa rua escura à noite. Aliás, esses casos são minoria, representam entre 20% e 30% dos estupros. A maior parte é cometida por conhecidos da vítima. E isso, misteriosamente, ninguém ensina pra gente.

Mulheres, quando se fala do perigo de viajar, deveriam nos contar também os perigos de se casar, de ter um namorado e de não ter liberdade dentro da família para ter vida sexual. Felizmente, mulheres viajadas mudam de lugar no mundo. Deixei de ser vista como frágil para me tornar corajosa. Eu não acho que viajantes são mais fortes do que mulheres que não viajam. O fato de ter viajado mais que a maioria dos homens e passado por tantos lugares sozinhas me fortaleceu e isso está no meu olhar doce, mas que ao mesmo tempo, enfrenta o que vier. Tem mil maneiras de encontrar essa força, cada mulher precisa encontrar seu caminho.

Decidi deixar aqui umas referências legais pra quem quer saber mais sobre feminismo e admirar outras mulheres que estão mudando o mundo.

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Documentário GirlRising.

O Documentário GirlRising é muito bom. ”Uma menina com coragem é a revolução.” Vale a pena assistir. Está disponível no Netflix.

Eu amei o livro  Sejamos Todos Feministas da Chimamanda Ngozi Adichie. Ela fez essa palestra para TEDxEuston e fizeram um livro dela. Muito esclarecedor. Ela é demais! Se você não a conhece, recomendo assistir, pode te ajudar a ver as diferenças entre gêneros.

Durantes minhas viagens, eu ficava muito desinformada. Desde o ano passado isso mudou com a indicação de um amigo. Agora eu escuto o podcast do Mamilos toda semana com a Cris Bartis e a Ju Walauer,  assim fico sabendo das polêmicas da semana. É o melhor programa sobre temas que deram repercussão nas mídias sociais no Brasil e no mundo. Elas são muito boas e estão sempre por dentro do que está pegando. Falaram de aborto, violência policial, cotas e muitos outros temas. O feminismo para mim é ter esse tipo de espaço, onde as mulheres também são protagonista e emitem suas opiniões. Mais espaços com mulheres livres para sonharem, conversarem e opinarem.

Quero que todas as mulheres realizem seus sonhos. Espero ver mais mulheres viajando pelo mundo, sei que muitas tem esse sonhos. Se esse é seu caso, esse texto foi escrito com ❤ pra você. E me escreva, comente aqui, ou viaje comigo. A ideia é unir a gente para melhorar o mundo.

Carolina Bernardes

Texto escrito de São Paulo.