Escutando o silêncio em árabe

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Nos últimos quase três meses não aprendi nem árabe, nem francês aqui na Tunísia, mas aprendi a escutar as pessoas. Parece estranho que justamente eu, uma pessoa que tem dificuldade entender a letra de uma música, compreender o que dizem em árabe. Sim, eu escuto as pessoas, mas nunca entendo as palavras que dizem.

O árabe como qualquer outro idioma é falado com os olhos, as mãos, a postura do corpo e o não-dito. Os hábitos das pessoas dizem muito, assim como as escolhas. Sentar ou não sentar à mesa, dar ou não bom dia, gritar ou falar baixo. Tudo isso diz muito.

O que muitas vezes facilita é que falam algumas palavras em francês ou árabe que entendo, ou falam os nomes. Aí pelas caras sei quem tá levando quem na conversa. Se estão de acordo ou existe uma discussão por trás. O engraçado, é que muitas pessoas acham que eu não entendo. Sou tão boba como uma criança, quando os pais acham que ela não está entendendo nada, só porque ainda não consegue verbalizar ou concluir um pensamento. Mesmo entendendo, acham tão inútil a discussão, que preferem voltar a construir um casa imaginária. Bobos são os adultos soberbos, esses que acreditam só nas palavras, só no que foi dito ou está escrito.

Sendo um pouco mais mística, sinto o ar pesar e a comida amargar na boca se vejo uma discussão à mesa. Mesmo ela sendo feita num árabe britânico.

De tudo que escutei aqui, o mais profundo, ainda é o silêncio.

Com amor de Sousse,
Carol

Escrito na primavera
que árabe ou não
me deixa sentir
o que é a opressão.

 

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Caronas na Tunísia – Tem machismo na estrada?

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No último mês na Tunísia eu fiz três viagens de carona, ao todo foram 372 km entre as cidades de Hajeb el Ayoun, Sousse, Chebba e Sousse.
Captura de tela de 2016-03-10 13:23:48
Desde o primeiro dia senti que as pessoas são muitos acolhedoras em todo o país, esse aspecto se estende às estradas.

Assim como em outros países, o grande desafio aqui é chegar até a estrada ou à uma saída da cidade. A partir do momento que estou fora do centro urbano tem sido bem fácil pegar carona (acho que o lugar mais fácil do mundo, até agora!)

Na última viagem, acabei fazendo um roteiro que sabia poderia ser difícil, em vez de pegar a estrada principal, A1, fui pelo interior. Mesmo assim, entrando em muitas cidades e saindo de cada uma delas após caminhar pelo menos uma hora (sem exagero, juro!), deu certo, menos de 5 minutos alguém parou o carro, depois que estava em locais apropriados para pegar carona.  (pude escutar nesse trajeto 2 anticasts, o que da uma noção de tempo!)
Na terça, peguei carona o Ali, o Maiz (algo assim), o Slim e a Leila (no carro tinham mais 3  meninas super simpáticas que não lembro o nome), elas me trouxeram até a casa da Hiba. Foi um dia maravilhoso, cheio de histórias e risadas.

Ao contrário de viajar de louage (vans locais) ou de ônibus, a viagem de carona tem me permitido conhecer mais gente e me conectar com essas pessoas. É bonito ver as pessoas se esforçando para que eu tenha uma viagem agradável, me apresentem seu país e me contam histórias. Mesmo com a dificuldade do idioma, pois eu não falo francês e entendo pouco, além de não entender nada de árabe, conseguimos  nos comunicar usando a boa vontade.
Ao contrário do Brasil, onde tem MUITOS postos de gasolina, fora das terras tupiniquins é raro vê-los. Mais raro ainda ver algum posto tão grande como um posto pequeno no Brasil. Então, o texto como pegar carona com caminhoneiros não se aplica aqui. Tem se aplicado pouco fora do Brasil.

As vezes uso plaquinhas com o nome da próxima cidade, as vezes vou pra um posto de gasolina, mas nem sempre é assim. Não tem nehuma regra, está sendo no puro improviso. E dá certo.

*****
Outro dia, ganhei carona de um homem com duas mulheres, pelo que entendi, duas arquitetas e ele – o dono da obra – estava indo com elas visitar a construção em Sfax, super elegantes todos (nunca tinha pegado carona na estrada com gente chique antes!). Ele me disse que se sentia responsável por mim por ser uma mulher. Daí uma amiga me questionou esse fato, será que é machismo?

Eu me senti confortável com eles, pareceu um gesto bonito e simpático. Ele em nenhum momento quis tirar minha autonomia, nem meu direito de viajar. Me passou a sensação de entender as mulheres, de entender que podem existir dificuldades – inclusive, por causa do machismo – e quis me ajudar. Se isso é reproduzir o machismo, eu ainda não sei.

O mundo, como o tenho percebido, não está dividido só entre pessoas boas e ruins. Todos cometemos erros, todos queremos ajudar. É tudo junto-misturado. Eu ainda não consigo separar o machismo do feminismo na estrada, até porque peguei carona até hoje com 5 mulheres contra mais de 500 homens. Seria simplista classificá-los. O fato é que o respeito cabe em todos os lugares, quando me sinto respeitada como mulher, não me incomoda o nome disso. Prefiri entender como gentileza.

E vocês, o que acham? É machismo?
Carol
Sousse, Tunisia

Sonhos e inseguranças: tudo junto em um só livro

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YYYYYYYYEEEEEEYYYYYYYY Terminei, terminei!

Depois de passar as últimas duas semanas sentada de frente para o computador (fotinha pra ilustrar a cena), mesmo estando a somente um quarteirão da praia, o livro vai tomando forma. Eu terminei de escrever, o que o Tales, do Ninho de Escritores, chamou de primeira escrita. Independente do nome que ele deu, eu me sinto feliz. EU TERMINEI!!!! =)

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Não preciso nem dizer que a foto não tem edição, né?
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Sente o drama da cor do mar. Chebba ❤

A minha maior felicidade em terminar essa parte do livro é o fato deu ter me expressado, me libertado das minhas inseguranças. Falado de tudo que queria ter escutado alguns anos atrás, quando comecei minha jornada. O livro, ainda está longe de estar pronto, eu mesma, ainda vou escrever e reescrever as histórias, mas a insegurança foi embora. Venci o meu desafio pessoal, o de escrever. Agora vem o meu próposito, embrulhar minhas histórias e deixá-las gosotas para as leitoras se empoderarem dos seus sonhos, fazerem suas próprias viagens, escreverem seus próprios livros.

Então, se você leu esse parágrafo, sinta-se compatartilhando uma grande felicidade minha.

Me sinto muito grata com o presente que o Elyes e família me deram, cedendo a casa deles pra mim. Sozinha, diante do computador e com pouquíssima internet, aqui estou. Tem hora, que nem tão feliz, chorei e ri escrevendo, com as histórias que mais me marcaram nas viagens pelo Brasil e Nuestramerica (nome que eu e o Oscar a damos América Latina).

Sobre o livro mesmo, não sei muito. Nunca escrevi um livro, agora começo a revisar. Cortar, limpar, corrigir. Tem várias pessoas lendo também, me ajudando nessa tarefa. Mais do que lendo, me motivaram a escrever e levar em frente o trabalho.  O que seria de mim sem essa rede de maravilhosa? Gau, obrigada, aquele seu email, me fez voltar a escrever!

Sobre os próximos passos, estou pedindo ajuda. Ainda não sei se vai aparecer voluntárias. Talvez uma editora profissional, alguma ilustradora para fazer a capa e alguém pra diagramar. Se você se identificou, me escreve carolmbernardes@gmail.com
Vou adorar!!!

Se aparecerem, o livro sairá ainda melhor, se não, sairá assim mesmo, com a ajuda de todos que tiveram tempo e puderam contribuir. Vou trabalhar para sair no meu aniversário, 20 de maio. Dar uma festa virtual!

O plano inicial é fazer um e-book gratuito, mas o Ale deu a ideia de também fazer uma micropublicação. Tipo 20 livros, só pra quem deseja tê-lo em papel mesmo. Estou pensando, porque daqui da Tunísia, é difícil distribuir. Aí, pensei, talvez apareça alguém voluntário também, né?! Não custa desejar. =)

Afinal, é um projeto coletivo! (eu ri escrevendo isso e vendo a minha própria cara-de-pau aqui)

Tão feliz, tão feliz, que só posso dizer, obrigada! Tanta gente faz parte desse livro, que os agradecimentos será um outro livro….  (gargalhadas!)

Gostou de alguma idéia, deseja o livro, comenta aqui! =)

Fico em Chebba mais uns dias!
Com amor, muito amor!
Carol

P.S. se está curiosa pra saber o nome do livro, te aviso, eu também estou. Ainda não tem nome!