Caronas

Caronas na Tunísia – Tem machismo na estrada?

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No último mês na Tunísia eu fiz três viagens de carona, ao todo foram 372 km entre as cidades de Hajeb el Ayoun, Sousse, Chebba e Sousse.
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Desde o primeiro dia senti que as pessoas são muitos acolhedoras em todo o país, esse aspecto se estende às estradas.

Assim como em outros países, o grande desafio aqui é chegar até a estrada ou à uma saída da cidade. A partir do momento que estou fora do centro urbano tem sido bem fácil pegar carona (acho que o lugar mais fácil do mundo, até agora!)

Na última viagem, acabei fazendo um roteiro que sabia poderia ser difícil, em vez de pegar a estrada principal, A1, fui pelo interior. Mesmo assim, entrando em muitas cidades e saindo de cada uma delas após caminhar pelo menos uma hora (sem exagero, juro!), deu certo, menos de 5 minutos alguém parou o carro, depois que estava em locais apropriados para pegar carona.  (pude escutar nesse trajeto 2 anticasts, o que da uma noção de tempo!)
Na terça, peguei carona o Ali, o Maiz (algo assim), o Slim e a Leila (no carro tinham mais 3  meninas super simpáticas que não lembro o nome), elas me trouxeram até a casa da Hiba. Foi um dia maravilhoso, cheio de histórias e risadas.

Ao contrário de viajar de louage (vans locais) ou de ônibus, a viagem de carona tem me permitido conhecer mais gente e me conectar com essas pessoas. É bonito ver as pessoas se esforçando para que eu tenha uma viagem agradável, me apresentem seu país e me contam histórias. Mesmo com a dificuldade do idioma, pois eu não falo francês e entendo pouco, além de não entender nada de árabe, conseguimos  nos comunicar usando a boa vontade.
Ao contrário do Brasil, onde tem MUITOS postos de gasolina, fora das terras tupiniquins é raro vê-los. Mais raro ainda ver algum posto tão grande como um posto pequeno no Brasil. Então, o texto como pegar carona com caminhoneiros não se aplica aqui. Tem se aplicado pouco fora do Brasil.

As vezes uso plaquinhas com o nome da próxima cidade, as vezes vou pra um posto de gasolina, mas nem sempre é assim. Não tem nehuma regra, está sendo no puro improviso. E dá certo.

*****
Outro dia, ganhei carona de um homem com duas mulheres, pelo que entendi, duas arquitetas e ele – o dono da obra – estava indo com elas visitar a construção em Sfax, super elegantes todos (nunca tinha pegado carona na estrada com gente chique antes!). Ele me disse que se sentia responsável por mim por ser uma mulher. Daí uma amiga me questionou esse fato, será que é machismo?

Eu me senti confortável com eles, pareceu um gesto bonito e simpático. Ele em nenhum momento quis tirar minha autonomia, nem meu direito de viajar. Me passou a sensação de entender as mulheres, de entender que podem existir dificuldades – inclusive, por causa do machismo – e quis me ajudar. Se isso é reproduzir o machismo, eu ainda não sei.

O mundo, como o tenho percebido, não está dividido só entre pessoas boas e ruins. Todos cometemos erros, todos queremos ajudar. É tudo junto-misturado. Eu ainda não consigo separar o machismo do feminismo na estrada, até porque peguei carona até hoje com 5 mulheres contra mais de 500 homens. Seria simplista classificá-los. O fato é que o respeito cabe em todos os lugares, quando me sinto respeitada como mulher, não me incomoda o nome disso. Prefiri entender como gentileza.

E vocês, o que acham? É machismo?
Carol
Sousse, Tunisia
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Tunísia: famílias, recepções e caronas

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Sábado, 30 de janeiro, eu desembarquei em Tunes. Vim no ferryboat de Palermo na Sicília até aqui, 12 horas em um navio, bem confortável e cercada por todos os lados de árabes muçulmanos. Pessoas muitos gentis, do embarque até agora, impossível não me sentir em casa.

A Tunísia é o primeiro país árabe que eu estou conhecendo. O meu plano aqui é ficar 3 meses, fazendo pequenas viagens e aproveitar que tenho o Elyes de anfitrião e mecenas, para trabalhar no livro.

O Elyes é um querido amigo. Nós nos conhecemos em 2008 e mantivemos contato esporádico por todos esses anos. Quando eu estava viajando pela America do Sul, ele tinha começado a viajar na Asia, tentamos nos encontrar na Colômbia em 2014, mas só em 2015 o reencontro aconteceu. Aí, ele passou uns dias comigo e o Palmas, na casa dele, em São Paulo.

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Elyes (Gahaf) e a pequena Soussen en Hajeb Laayoun

Mais do que antigos amigos com histórias em comum, o Elyes se tornou um amigo próximo pelas escolhas. Ele tem um personagem que chama Gahaf Tounsi, que viaja o mundo, o ideal de pessoa. Também vive sem utilizar muito dinheiro, recebendo doações pelo seus trabalho (que são ótimo!), esse é o projeto No Price. Ele tem muitas outras ideias incríveis que compartilhamos e conversamos sobre nesses dias. Recentemente traduzi um texto seu, contando sobre uma viagem dele de bike pela Tunísia, gastando menos de 20 reais em 35 dias, pedalando mais de 1000km. Texto original.

Eu vim pra cá com o Palmas, o amigo-namorado-companheiro, pessoa da qual nunca falo em rede sociais, mas que tem mais de um ano estamos fazendo muitas viagens juntos, compartilhando vida, princípios e sonhos. Ele veio me ver por 20 dias (10 na Itália e 10 na Tunísia). Faço essa introdução, porque já está feita no facebook pelo Elyes, que nos recebeu juntos e de braços abertos. O que mais está rolando desde que chegamos na Tunísia, é foto nossa no facebook. Então, não adianta não falar.

Recepção Tunisiana

A família dele nos acolheu, O Abdou, a Nejet, a Amira, e claro o Elyes, além de todos os amigos, primos, tias e tios. =) Os últimos 18 dias, passaram como um furacão aqui, muito intenso, rápido e mexendo com todos os sentimentos. Desde a chegada em Tunes, com a recepção do Elyes e o Abdou esperando a gente no porto, quase meia-noite (últimos dias do toque de recolher aqui, que começava a meia-noite), depois a gente ir pra casa dele, sermos cuidados com em nossas casas (talvez até mais mimados!). Toca no coração! De fato, o que aconteceu aqui foi o seguinte: me adotaram. Eles se preocupam comigo como se eu fosse da família. Me ligam pra saber se estou bem, mandam mensagem para ver se cheguei na próxima cidade (isso aconteceu enquanto o Palmas estava aqui, e continua agora que ele foi embora). ❤

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Foto do Elyes – Eu e o Palmas em Sid Bud Said
 Como o Elyes sabia que eu e o Palmas amamos bicicleta, ele pegou duas bikes ótimas, ótimas mesmo! E durante vários dias ele fez um relato da nossa experiência no estilo Gahaf de ser. Consumindo pouco, ficando em casas tradicionais, usando a bike como transporte… ou seja, um estilo de vida bem parecido com o meu. Tudo ficou fácil! E uma delícia… uma aviso para quem vier pra Tunísia traga roupas largas, vai precisar de espaço para pernas maiores, barriguinha, braços… Os passeios aqui foram todos muito legais e as pessoas super receptivas.
Depois de passarmos 4 dias em Tunes e pedalarmos uns 100 kms nesses dias pudemos ter um olhar geral de Tunis, Carthage, Sidi Bud Said e Ariana, fomos para Chebba. Lá uma recepção ainda mais familiar! Conhecemos grande parte das irmãs e irmãos do Abdou, primas, primos do Elyes e o jardim que ele está fazendo. Um futuro paraíso com base na permacultura.

Cada dia que passei aqui conheci novas pessoas, a maioria muçulmana. Aos poucos vou conhecendo melhor a cultura, sendo hospedada na casa das pessoas. Tive muitas surpresas aqui, principalmente em relação as mulheres. Me sinto tão próxima delas, com sonhos tão parecidos.
Caronas
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Minha 1a carona – Basma, seus pais e a galinha que me deram de presente!
Depois de muitas viagens acompanhada, desde que cheguei, ou estava com o Palmas, ou com o Elyes, ou com os dois e mais alguém. Agora comecei a viajar sozinha. Peguei Louague um dia, fui até Hajeb Laayoun, no caminho fiz várias amizades.  Passei uns dias lá trabalhando em uma fazenda de permacultura e de lá vim pegando carona até Sousse.
Acabei de eleger a Tunísia como o melhor país para pegar carona. Foram 2 minutos no primeiro posto de gasolina. E o primeiro carro que passou no pedágio me deu carona e fez questão de me deixar quando a Hiba, minha atual host chegou.
Paradeiro (palavra mineira)
E agora, mais uma casa onde sou bem-vinda. Me convidaram até pra ficar aqui escrevendo. A Hiba é bem parecida comido, minha versão Tunisiana. O pai dela disse que podíamos ser irmãs. =)
Em breve vou fazer uma entrevista com ela. Ela viajou de carona pela Tunísia, Europa e está querendo viajar pela Asia em breve. Se tiver alguma curiosidade, perguntem aí, que ela vai responder!
Estou amando a temporada aqui. Me sentindo no lugar certo, na hora certa e com as pessoas certas. Tão gostoso tudo isso! Da muita gratidão!
Beijos,
Carol ou Farah (meu nome árabe que significa feliciade)
Hospedada na casa da querida Hiba, Sousse, Tunisia.
Quer saber mais de mim twitter @carolmbernardes

Mulher livre vai para onde quer! Inclusive dar uma voltinha no mundo…

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Toda mulher tem o direito de viajar sem medo. Chamo isso de liberdade. Todo homem também, mas o medo que atormenta as mulheres é outro. Podem roubar, podem levar todo o dinheiro, só não queremos que mexam com a gente. O mais louco, que não tem pra onde correr nesse aspecto. Se ando de bike em São Paulo, vou escutar comentários. Se passo na frente de um bar, construção ou um simples aglomerado de homens, lá vem uma gracinha. O problema não está em mim, está nos homens. Na viagem é parecido, mas acho que os homens mudam um pouco a abordagem quando sentem segurança na mulher. Faz alguns anos que passei a respondê-los.

Para viajar pelo mundo, ir a onde quiser, precisamos saber andar sozinha. Sou fã da Leila Diniz, aprendi viajando a gostar de mim e da minha companhia. Adoro viajar com mais gente, mas como os amigos nem sempre estão disponíveis, eu não deixo de fazer nada porque estou sozinha.  Foi por isso que comecei a viajar sozinha, a falta de opção me libertou. 🙂

Leila Diniz
Leila Diniz

Em 2013 escrevi um texto sobre caronas com caminhoneiros, nele falo para mulheres não usarem decote, roupas curtas. Nós podemos usar a roupa que quiser, mas acho que melhora a vida na estrada chamar menos atenção. Espero realmente que um dia isso mude, mas por enquanto, essa é uma briga que não compro na estrada. Dói sempre que digo isso, mas ainda é assim, podemos ser ”confundidas”…

A Lola escreveu uma resenha muito boa sobre o livro o Dom do Medo, que fala sobre os ”stalkers” (perseguidores). Está nesse link aqui, para quem tem medo desse tipo de assédio durante a viagem. O post chama ”Sinais que você deve temer”. A pior parte do texto, é o fato que eu já sabia, mas vou deixar o trecho aqui, que corremos menos riscos com os estranhos.

E não são estupradas apenas pelo estranho numa rua escura à noite. Aliás, esses casos são minoria, representam entre 20% e 30% dos estupros. A maior parte é cometida por conhecidos da vítima. E isso, misteriosamente, ninguém ensina pra gente.

Mulheres, quando se fala do perigo de viajar, deveriam nos contar também os perigos de se casar, de ter um namorado e de não ter liberdade dentro da família para ter vida sexual. Felizmente, mulheres viajadas mudam de lugar no mundo. Deixei de ser vista como frágil para me tornar corajosa. Eu não acho que viajantes são mais fortes do que mulheres que não viajam. O fato de ter viajado mais que a maioria dos homens e passado por tantos lugares sozinhas me fortaleceu e isso está no meu olhar doce, mas que ao mesmo tempo, enfrenta o que vier. Tem mil maneiras de encontrar essa força, cada mulher precisa encontrar seu caminho.

Decidi deixar aqui umas referências legais pra quem quer saber mais sobre feminismo e admirar outras mulheres que estão mudando o mundo.

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Documentário GirlRising.

O Documentário GirlRising é muito bom. ”Uma menina com coragem é a revolução.” Vale a pena assistir. Está disponível no Netflix.

Eu amei o livro  Sejamos Todos Feministas da Chimamanda Ngozi Adichie. Ela fez essa palestra para TEDxEuston e fizeram um livro dela. Muito esclarecedor. Ela é demais! Se você não a conhece, recomendo assistir, pode te ajudar a ver as diferenças entre gêneros.

Durantes minhas viagens, eu ficava muito desinformada. Desde o ano passado isso mudou com a indicação de um amigo. Agora eu escuto o podcast do Mamilos toda semana com a Cris Bartis e a Ju Walauer,  assim fico sabendo das polêmicas da semana. É o melhor programa sobre temas que deram repercussão nas mídias sociais no Brasil e no mundo. Elas são muito boas e estão sempre por dentro do que está pegando. Falaram de aborto, violência policial, cotas e muitos outros temas. O feminismo para mim é ter esse tipo de espaço, onde as mulheres também são protagonista e emitem suas opiniões. Mais espaços com mulheres livres para sonharem, conversarem e opinarem.

Quero que todas as mulheres realizem seus sonhos. Espero ver mais mulheres viajando pelo mundo, sei que muitas tem esse sonhos. Se esse é seu caso, esse texto foi escrito com ❤ pra você. E me escreva, comente aqui, ou viaje comigo. A ideia é unir a gente para melhorar o mundo.

Carolina Bernardes

Texto escrito de São Paulo.