Mulheres

Caronas na Tunísia – Tem machismo na estrada?

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No último mês na Tunísia eu fiz três viagens de carona, ao todo foram 372 km entre as cidades de Hajeb el Ayoun, Sousse, Chebba e Sousse.
Captura de tela de 2016-03-10 13:23:48
Desde o primeiro dia senti que as pessoas são muitos acolhedoras em todo o país, esse aspecto se estende às estradas.

Assim como em outros países, o grande desafio aqui é chegar até a estrada ou à uma saída da cidade. A partir do momento que estou fora do centro urbano tem sido bem fácil pegar carona (acho que o lugar mais fácil do mundo, até agora!)

Na última viagem, acabei fazendo um roteiro que sabia poderia ser difícil, em vez de pegar a estrada principal, A1, fui pelo interior. Mesmo assim, entrando em muitas cidades e saindo de cada uma delas após caminhar pelo menos uma hora (sem exagero, juro!), deu certo, menos de 5 minutos alguém parou o carro, depois que estava em locais apropriados para pegar carona.  (pude escutar nesse trajeto 2 anticasts, o que da uma noção de tempo!)
Na terça, peguei carona o Ali, o Maiz (algo assim), o Slim e a Leila (no carro tinham mais 3  meninas super simpáticas que não lembro o nome), elas me trouxeram até a casa da Hiba. Foi um dia maravilhoso, cheio de histórias e risadas.

Ao contrário de viajar de louage (vans locais) ou de ônibus, a viagem de carona tem me permitido conhecer mais gente e me conectar com essas pessoas. É bonito ver as pessoas se esforçando para que eu tenha uma viagem agradável, me apresentem seu país e me contam histórias. Mesmo com a dificuldade do idioma, pois eu não falo francês e entendo pouco, além de não entender nada de árabe, conseguimos  nos comunicar usando a boa vontade.
Ao contrário do Brasil, onde tem MUITOS postos de gasolina, fora das terras tupiniquins é raro vê-los. Mais raro ainda ver algum posto tão grande como um posto pequeno no Brasil. Então, o texto como pegar carona com caminhoneiros não se aplica aqui. Tem se aplicado pouco fora do Brasil.

As vezes uso plaquinhas com o nome da próxima cidade, as vezes vou pra um posto de gasolina, mas nem sempre é assim. Não tem nehuma regra, está sendo no puro improviso. E dá certo.

*****
Outro dia, ganhei carona de um homem com duas mulheres, pelo que entendi, duas arquitetas e ele – o dono da obra – estava indo com elas visitar a construção em Sfax, super elegantes todos (nunca tinha pegado carona na estrada com gente chique antes!). Ele me disse que se sentia responsável por mim por ser uma mulher. Daí uma amiga me questionou esse fato, será que é machismo?

Eu me senti confortável com eles, pareceu um gesto bonito e simpático. Ele em nenhum momento quis tirar minha autonomia, nem meu direito de viajar. Me passou a sensação de entender as mulheres, de entender que podem existir dificuldades – inclusive, por causa do machismo – e quis me ajudar. Se isso é reproduzir o machismo, eu ainda não sei.

O mundo, como o tenho percebido, não está dividido só entre pessoas boas e ruins. Todos cometemos erros, todos queremos ajudar. É tudo junto-misturado. Eu ainda não consigo separar o machismo do feminismo na estrada, até porque peguei carona até hoje com 5 mulheres contra mais de 500 homens. Seria simplista classificá-los. O fato é que o respeito cabe em todos os lugares, quando me sinto respeitada como mulher, não me incomoda o nome disso. Prefiri entender como gentileza.

E vocês, o que acham? É machismo?
Carol
Sousse, Tunisia
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Um muçulmano diferente

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Hoje conheci pessoalmente um muçulmano diferente. Após um mês aqui, já consigo dizer o que me parece ”padrão” e o que é ”diferente”. Ele estava me ajudando em uma loja, porque meu carregador parou de funcionar. Fui puxando papo, disse que precisava de wifi, porque a maioria dos cafés por perto era só para homens. Deslizei nessa hora e cometi uma gafe, dizendo que isso era ”injusto”. Eu tinha acabado de julgar. Ele me pegou no pulo e disse para eu ter cuidado com as palavras.

Argumentei que não era desrespeito, mas que me sentia incomodada passando na porta dos cafés, que em alguns lugares tinha gente dos dois lados da rua, com homens me olhando. Apesar de ter um monte de lugar com wifi, só havia um longe dali onde poderia ir. Me lembram muito os botecos de esquina no Brasil, cheio de homens. A vantagem aqui é não tem álcool, mas eles são 10 vezes mais que os botecos no Brasil.

Recuperei a conversa e continuamos conversando. Ele foi todo prestativo, me emprestou o wifi e pude até fazer uma ligação por skype. Aí, depois de muito conversar com o Hassif, ele perguntou meu nome (eu tinha perguntado o dele no começo da conversa). Disse que me chamava Carol e estendi a mão.
– Eu não toco em mulheres. Ele me disse.
Eu não soube o que responder. Fiquei calada uns segundos, me segurando. Aí, perguntei, se podia saber o motivo. Ele me explicou que é religioso e por isso é proibido de tocar em uma mulher fora da família, mas que só 10% das pessoas hoje em dia fazem isso na Tunísia. Disse que se sente um estrageiro em seu próprio país, pois as pessoas não seguem mais as tradições.

Passamos a próxima hora conversando sobre religião, espiritualidade. Eu sei muito pouco sobre a religião muçulmana e em inglês, ele não sentia as palavras fluirem para me explicar bem. Me disse que eu vou gostar e que devia para começar a ler a respeito. Perguntei se ele tinha algum livro pra me indicar. Ficou de pensar, vou passar lá durante a semana para pegar a indicação.

Apesar dele não tocar em mim, ele me ajudou, foi simpático, me ensinou sobre sua religião. No final, quando me despedi com ”Salaam Aleikum” (que a paz esteja convosco), ele riu e disse ”Alaikum As-Salaam”. Fui embora.

Confesso, que meu lado feminista estranha um homem não querer pegar na minha mão. Ao mesmo tempo, que adorei ele conversar comigo de igual pra igual. Ainda estou com uma pulga atrás da orelha, pois ele não faria isso com um homem, poderia ser visto como desfeita.

O bom de viajar e conhecer outras culturas, é encontrar essa interseção. Esse espaço comum onde não existe nenhuma verdade pra todos, mas independente disso, todos se respeitam.

Por hora, fico com a tarefa de casa de estudar o tema. Se você tiver artigos e indicações sobre isso, comentem aqui.

Inverno em Chebba.
Carol

Mulher livre vai para onde quer! Inclusive dar uma voltinha no mundo…

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Toda mulher tem o direito de viajar sem medo. Chamo isso de liberdade. Todo homem também, mas o medo que atormenta as mulheres é outro. Podem roubar, podem levar todo o dinheiro, só não queremos que mexam com a gente. O mais louco, que não tem pra onde correr nesse aspecto. Se ando de bike em São Paulo, vou escutar comentários. Se passo na frente de um bar, construção ou um simples aglomerado de homens, lá vem uma gracinha. O problema não está em mim, está nos homens. Na viagem é parecido, mas acho que os homens mudam um pouco a abordagem quando sentem segurança na mulher. Faz alguns anos que passei a respondê-los.

Para viajar pelo mundo, ir a onde quiser, precisamos saber andar sozinha. Sou fã da Leila Diniz, aprendi viajando a gostar de mim e da minha companhia. Adoro viajar com mais gente, mas como os amigos nem sempre estão disponíveis, eu não deixo de fazer nada porque estou sozinha.  Foi por isso que comecei a viajar sozinha, a falta de opção me libertou. 🙂

Leila Diniz
Leila Diniz

Em 2013 escrevi um texto sobre caronas com caminhoneiros, nele falo para mulheres não usarem decote, roupas curtas. Nós podemos usar a roupa que quiser, mas acho que melhora a vida na estrada chamar menos atenção. Espero realmente que um dia isso mude, mas por enquanto, essa é uma briga que não compro na estrada. Dói sempre que digo isso, mas ainda é assim, podemos ser ”confundidas”…

A Lola escreveu uma resenha muito boa sobre o livro o Dom do Medo, que fala sobre os ”stalkers” (perseguidores). Está nesse link aqui, para quem tem medo desse tipo de assédio durante a viagem. O post chama ”Sinais que você deve temer”. A pior parte do texto, é o fato que eu já sabia, mas vou deixar o trecho aqui, que corremos menos riscos com os estranhos.

E não são estupradas apenas pelo estranho numa rua escura à noite. Aliás, esses casos são minoria, representam entre 20% e 30% dos estupros. A maior parte é cometida por conhecidos da vítima. E isso, misteriosamente, ninguém ensina pra gente.

Mulheres, quando se fala do perigo de viajar, deveriam nos contar também os perigos de se casar, de ter um namorado e de não ter liberdade dentro da família para ter vida sexual. Felizmente, mulheres viajadas mudam de lugar no mundo. Deixei de ser vista como frágil para me tornar corajosa. Eu não acho que viajantes são mais fortes do que mulheres que não viajam. O fato de ter viajado mais que a maioria dos homens e passado por tantos lugares sozinhas me fortaleceu e isso está no meu olhar doce, mas que ao mesmo tempo, enfrenta o que vier. Tem mil maneiras de encontrar essa força, cada mulher precisa encontrar seu caminho.

Decidi deixar aqui umas referências legais pra quem quer saber mais sobre feminismo e admirar outras mulheres que estão mudando o mundo.

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Documentário GirlRising.

O Documentário GirlRising é muito bom. ”Uma menina com coragem é a revolução.” Vale a pena assistir. Está disponível no Netflix.

Eu amei o livro  Sejamos Todos Feministas da Chimamanda Ngozi Adichie. Ela fez essa palestra para TEDxEuston e fizeram um livro dela. Muito esclarecedor. Ela é demais! Se você não a conhece, recomendo assistir, pode te ajudar a ver as diferenças entre gêneros.

Durantes minhas viagens, eu ficava muito desinformada. Desde o ano passado isso mudou com a indicação de um amigo. Agora eu escuto o podcast do Mamilos toda semana com a Cris Bartis e a Ju Walauer,  assim fico sabendo das polêmicas da semana. É o melhor programa sobre temas que deram repercussão nas mídias sociais no Brasil e no mundo. Elas são muito boas e estão sempre por dentro do que está pegando. Falaram de aborto, violência policial, cotas e muitos outros temas. O feminismo para mim é ter esse tipo de espaço, onde as mulheres também são protagonista e emitem suas opiniões. Mais espaços com mulheres livres para sonharem, conversarem e opinarem.

Quero que todas as mulheres realizem seus sonhos. Espero ver mais mulheres viajando pelo mundo, sei que muitas tem esse sonhos. Se esse é seu caso, esse texto foi escrito com ❤ pra você. E me escreva, comente aqui, ou viaje comigo. A ideia é unir a gente para melhorar o mundo.

Carolina Bernardes

Texto escrito de São Paulo.