Ubatuba

Rusalka of the seas: velejar é preciso #viagem1

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No fim desse mês embarco no Rusalka para realizar o sonho de navegar mares distantes. Só de pensar, sinto o frio na barriga, uma miscelânea de sentimentos. Medo, é um sentimento distante. A confiança no capitão que viaja na sua casa com sua família é imensa. Por isso, decidi compartilhar minha primeira viagem no Rusalka, o encantadora viagem do Rio de Janeiro até Ubatuba.

Dia 6 de janeiro de 2015

Eu havia chegado na noite anterior de Minas Gerais, depois de 2 dias de carona. Um dia com a Nadir, minha irmã, que me levou até Sampa e depois outras tantas até o Rio de Janeiro. Eu mal podia esperar para entrar no veleiro, cheguei um dia antes para garantir nenhum atraso. Fui recebida na república da Bia, por sorte as meninas estavam animadas e ficamos conversando madrugada a fora. Eu precisava me cansar para dormir. Ainda não sabia como ia ser viver no veleiro, meu teste ia começar em breve.

Adoro ir pro Rio de Janeiro, a recepção é sempre boa e sempre encontro alguém legal. Fui encontrar com o Tássio para almoçar enquanto fazia hora pra ir pra Urca. O tempo passou voando! Quando vi já era hora de ir pra praia encontrar com meu futuro lar, o veleiro Rusalka.

Urca, Rusalka na Baía de Guanabara Foto: Carolina Bernardes

Mal desci do ônibus e já avistei a serei azul pintada no casco. Sem dúvida, era o Rusalka. Como meu celular não funcionava, pedi para uma moça ali enviar uma mensagem, uns minutos depois avistei o Mark chegando na praia com o Pali e a Uma para me buscarem. Enfim, ia embarcar.

As crianças são um contraste, o Pali (3 anos) querendo ir mais rápido possível e a Uma (5 anos) mais devagar. Pra mim, a velocidade pouco importava, o dia estava lindo e íamos dormir ali no meio da Baía de Guanabara, como a melhor vista do Rio de Janeiro. Depois de um mês sem crianças por perto, estava feliz de voltar a conviver com elas, brincar, rir, contar histórias…

Enquanto eu estava feliz e toda empolgada de chegar no veleiro, os tripulantes estavam comemorando o fim de mais uma expedição pela costa do Brasil. Tinham recebido várias pessoas no último mês e era despida do Daniel, guia de terra espanhol, amigo e antigo tripulante do veleiro. Muita coisa ao mesmo tempo e fomos comemorar no Bar Urca e despedir do Daniel. Pôr-do-sol no Bar Urca é lindo de se ver. É a ocupação do espaço público, gente de todas as idades ali, a beira mar, curtindo o fim do dia.

Vista do Rio de Janeiro do veleiro. Foto: Carolina Bernardes
Vista do Rio de Janeiro do veleiro. Foto: Carolina Bernardes

Voltamos pro veleiro e a comemoração continuou. Escutamos música e tive uma aula sobre constelações estrelares com direito a mitologia e tudo. Fui dormir feliz, mal cabia em mim tanta informação nova. Tanta alegria de começar a viver um novo sonho.

No dia seguinte começamos a preparar o barco para a viagem até Ubatuba. A rota foi: uma noite em Ilha Grande, depois Paraty, Saco do Mamangá, Ponta Negra e Ubatuba. Apesar do Rio de Janeiro ser lindo, a Baía pós Ano Novo está mais suja do que o normal e com o calor de janeiro, deu uma certa felicidade de sair dali. 🙂

No dia 8 fomos para Ilha Grande. Dia lindo, céu azul e a vista do Rio de Janeiro nos acompanhou. Como era meu primeiro dia em mar aberto, tive enjoo e a solução foi eu ficar no timão, volante do veleiro. Passei o dia timoneando e não senti mais nada. Só não podia ficar lá embaixo que voltava a sentir enjoo. Fiquei feliz de não vomitar e saber que logo me acostumaria como o balanço do mar.

Vimos um lindo pôr-do-sol, a noite caiu e logo em seguida a lua nasceu no mar. No céu havia estrelas que não acabavam mais (mesmo com a Lua) e eu explodindo de alegria com tanta beleza. Depois de ver vários satélites e confundir com estrelas cadentes, começei a vê-las de verdade. Acabamos deitando por ali e dei uma cochilada com a Uma e a Dani que também apreciavam as estrelas. O Mark estava de guarda timoneando e era quase 11h da noite quando chegamos, ancoramos e fomos dormir com a lua cheia iluminando o mar.

Pôr-so-sol no caminho para Ilha Grande. Foto: CArolina Bernardes
Pôr-so-sol no caminho para Ilha Grande. Foto: Carolina Bernardes

Eu acordei sabendo que estava em Ilha Grande. Era umas 7h quando as crianças acordaram e antes de pensar em fazer qualquer coisa, vi que todos estavam aprontando para nadar. Rapidamente coloquei meu biquíni e também subi. Quem conhece a Ilha Grande sabe do que estou falando, montanhas de Mata Atlântica, água cristalina e ancoramos numa praia quase deserta. Que delícia de água. Nadamos um tempão. Depois dessa refrescada e de circular energia no corpo e na alma, voltamos pro veleiro para preparar o café da manhã.

Ilha Grande. Foto: Carolina Bernardes
Ilha Grande. Foto: Carolina Bernardes

Após o café, partimos para Paraty, nessa noite iria embarcar o Rodrigo, a Anna, que são como irmãos pra mim, junto com o Matt e a Cori.

Navegando aprendi um pouco como baixar vela, sobir vela, mudar vela. Aprendi a dar alguns nós de marinheira. Aprendi que tudo no veleiro se guarda no lugar certo. Ou fica muito bem encaixado/arramado. A Dani disse que é uma liberdade viajar com o vento, mas tudo precisa estar preso. Até a liberdade tem limites.

Velejando no final do dia. Foto: Carolina Bernardes
Velejando no final do dia. Foto: Carolina Bernardes

Essa parte da viagem Ilha Grande- Paraty é uma delícia. por causa da ilha, não estamos mais em mar aberto, então balança bem menos e nem eu passei mal. Aproveitei bastante esse dia.

Chegamos no fim dia em Paraty, deu para nadar e brincar um bom tempo. No começo estranhava um pouco nadar tão longe da costa, sem ver o fundo do mar, mas logo me acostumei e passei a achar muito bom. As crianças se divertem nadando e mostram que não existe limites. A Uma de 5 anos nada sem colete, nem bóia. A única restrição é ter um adulto junto. O Pali ainda usa bóia, mas já sabe nadar e adora dar voltar no barco.

Passamos a noite em Paraty. A Anna e o Rô embarcaram e foi uma alegria só. Mais crianças no barco, elas se distraem brincando e resolvendo seus próprios conflitos.

Nossa segunda noite em Paraty foi o dia mais especial de toda viagem. A Uma tinha me contado que as vezes era possível nadar com as estrelas. Eu não tinha ideia do que era isso, perguntei para a Dani e ela me contou que onde dormiríamos, no Saco do Mamanguá, por ser limpo e com a água mais parada, provavelmente íamos encontrar Noctlucas. Durante a noite, elas brilham. As crianças não resistiram ao sono e foram dormir. Eu fiquei esperando o jantar acabar para nadar. O Mark apagou as luzes do barco e apesar de ninguém está tão empolgado quanto eu com o evento, pulei sozinha no mar e fiquei nadando nas águas termais (verão em Paraty a água estava quentinha!). Não importava onde eu mexia, o mar brilhava! Eu concordei com a Uma, tive mesmo a  impressão que haviam estrelas no mar! Eu não tinha equipamento pra tirar foto, mas deixo essa para vocês terem ideia do fenômeno.

Noctilucas Foto: Doug Perrine (maldivas)
Noctilucas Foto: Doug Perrine (maldivas)

O dia era cheio de atividades! A rotina no verão foi mais ou menos assim: nadar, preparar as refeições, organizar o veleiro, brincar com as crianças, ler, pintar, contar histórias e aproveitar o dia navegando.

Superlotação do Caiaque. Foto: Carolina Bernardes
Superlotação do Caiaque. Foto: Carolina Bernardes

No Mamanguá e agora velejando menos, fizemos outros passeios. Passamos o dia na praia com as crianças, fomos de bote para a cachoeira e a Dani com o Rô e as crianças foram remando. Uma vida gostosa, um pouco cansativa e glamourosa ao mesmo tempo. O fato é que não é nada romântica. Precisamos manter o barco limpo, lavar os banheiros, cuidar da cozinha e fazer a manutenção do barco. O capitão trabalha, a Dani trabalha e eu também. As crianças brincam, mas sabem que precisam colaborar. Uma vida boa, em que o barco vira casa, a casa vira transporte e o mar passa a ser o quintal. Nisso, enquanto cozinhamos e conversamos, passa um bando de golfinhos… uau!

Mangue. Foto: Carolina Bernardes
Mangue. Foto: Carolina Bernardes

O mais legal desse trabalho a bordo, é que quando estamos cansados, ficamos com calor… é só colocar o biquini e dar um pulo no mar. 🙂 Refresca a alma e da energia pro que vier pela frente.

E assim foi passando a viagem… paramos em Ponta Negra, na praia Antiguinhos, na Ilha dos Porcos. Por fim, depois de estar bem morena e ter nadado muito, chegamos em Ubatuba. Com as três buzinadas, nos despedimos da Anna, Rodrigo, Mattias e Corinna. Eu ainda fiquei mais uma semana no barco. Levamos o Rusalka para o Saco da Ribeira e voltei a viajar por terra. Enquanto isso, a família está no México revendo a família e renovando o visto para buscarem o barco. A Dani foi dar um Ted Talk em Genebra sobre sustentabilidade no Barco! É lindo, né?!

Rusalka, vista do Saco do Mamanguá. Foto: Carolina Bernardes
Rusalka, vista do Saco do Mamanguá. Foto: Carolina Bernardes

No fim desse mês (abril) voltamos todos a Ubatuba para preparar a viagem pela costa do Brasil e depois para o caribe. 55 dias de mar. Muitas praias e ilhas pra conhecermos. Novos passageiros a bordo. No meu coração, fica a felicidade de saber que ainda vou aprender muito sobre o mar, veleiros e como viver em comunhão com a natureza.

Deixo aqui minha gratidão a Dani e o Mark que me deram essa oportunidade maravilhosa de viajar com eles. Desejo de que todos um dia façam viagens assim…

Escolhi uma poesia do Fernando Pessoa para ilustrar minha satisfação.

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa

Ubatuba: preparação pra viagem

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Adquiri o habito de passar em Ubatuba quando estou por perto. Em 2013 a amizade com a Anna e o Rô se transformou em um amor profundo por eles e pelas crianças, o Matt e a Corina.

As crianças tem me dado una noção de tempo, cada vez que visito vejo uma grande mudança… Dentes, a cor da pele, o corpo e até o jeito de ser. Mudam muito rápido!

Queria muito passar lá antes de viajar por isso. Sem saber quantos anos ficarei na estrada, sei que vão crescer nesse tempo. Talvez, não se lembrem de mim. Essa noção de tempo é a mais forte que tive na minha vida. Pois é em relação as pessoas, a intensidade e a escolha. Eu escolho estar com eles sempre que da, sem nenhuma expectativa a não ser amá-los e aproveitar os dias que passamos juntos.

Foram dois dias lindos! Cheios de amor, de acolhimento. Dias que me reforçaram a idéia de voltar da viagem e morar em Ubatuba. De me tornar tia do Matt e da Cori. De aprender com o Rô a cozinhar, plantar e colher. Aprender com a Anna a ajudar as pessoas, as famílias… Isso tudo vivendo a vida que escolheram.

Enrolado no meu pescoço esta meu novo amuleto. Nas costas a mochila que a Anna levou pra Irlanda, o saco que resiste ao frio intenso, a rede que me dará conforto e me lembrará das conversas na varanda, a capa que ira me proteger da chuva. Foram tantos presentes que não teria carta ao papai noel que funcionasse.

A volta ao mundo já é a realização de um sonho. Onde independente do tempo e do espaço o amor e o cuidado uns com os outros é construído. Um mundo em que meus amigos sonham junto comigo e eu com eles.

Nesse mundo até o cortar o canela se mistura tanto com os desejos que já não sabia ao final o que era idéia minha. Mas estava realizada por cortar e rapar (pela 1a vez) seguindo meu ritual de cabelo curto para viajar.

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A volta ao mundo se tornou real quando planejamos ela no seu globo.

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É hora de seguir viagem, mas não existe separação. Estamos juntos, mesmo que a casa seja outra (a de vocês) mesmo que as crianças estejam grandes,mesmo que meu caminho me leve para outra direção. Foram dois dias lindos que me inundaram de amor. ❤

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